PIB surpreende, mas guerra ameaça o ritmo: O que esperar da economia brasileira nos próximos meses?

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Na terça-feira, 3 de março de 2026, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou um número que, à primeira vista, trazia certo alívio: o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu 2,3% em 2025 . Em um cenário global cheio de armadilhas, crescer é sempre melhor do que cair.

Mas quem acompanha a economia de perto sabe que os números, assim como as notícias, precisam ser esmiuçados. Afinal, o que realmente está por trás desse resultado? E, mais importante: dá para confiar que 2026 seguirá o mesmo ritmo, com a guerra no Oriente Médio pegando fogo e as eleições se aproximando?

A verdade é que o crescimento de 2,3% veio com um “porém” bem grande. Foi o avanço mais fraco desde a queda de 3,3% registrada em 2020, no auge da pandemia de covid-19 . Representa, na prática, uma desaceleração clara em relação aos 3,4% de 2024 .

A economia brasileira já vinha perdendo fôlego antes mesmo de a poeira da guerra se levantar no Oriente Médio. E os dados do último trimestre de 2025 mostram isso com clareza.

Estagnação no fim do ano: o sinal amarelo acendeu

O quarto trimestre de 2025 registrou uma variação de apenas 0,1% em relação ao trimestre anterior . Na linguagem dos economistas, isso é o que se chama de estabilidade. No popular, significa que a economia praticamente empatou com ela mesma, ficando no zero a zero.

O que segurou as pontas nesse período foram o setor de serviços, que cresceu 0,8%, e a agropecuária, com alta de 0,5%. A indústria, por outro lado, sentiu o golpe e caiu 0,7% .

E tem um detalhe que preocupa: o consumo das famílias, motor tradicional da economia brasileira, simplesmente não reagiu. Ficou estagnado, com variação zero no trimestre . O investimento, que é o dinheiro aplicado em máquinas, equipamentos e construção, despencou 3,5% .

“O elevado endividamento de famílias e empresas explica essa forte queda do investimento e a estagnação do consumo”, avalia Matheus Pizzani, economista do PicPay, em análise publicada recentemente . Em outras palavras, mesmo com o mercado de trabalho ainda aquecido, o bolso e o crédito apertados não deixaram a economia deslanchar.

A força do campo e o consumidor contido

Se 2025 terminou devagar, como foi possível fechar o ano com crescimento de 2,3%? A resposta tem nome e sobrenome: agropecuária.

O setor disparou 11,7% no ano passado, puxado por uma safra recorde de grãos . Foi a grande estrela do PIB, compensando em boa parte a fraqueza dos outros setores. A indústria de extração, especialmente de petróleo e minério, também ajudou, com alta de 8,6% .

Do lado da demanda, o consumo das famílias cresceu apenas 1,3% em 2025, menos da metade dos 3,5% registrados no ano anterior . “O avanço, apesar de tímido, reflete a melhora no mercado de trabalho, o aumento do crédito e os programas governamentais de transferência de renda”, explica Gesner Oliveira, professor da FGV . Mas o efeito prático foi limitado: o dinheiro chegou, mas não foi suficiente para girar a economia no ritmo que se esperava.

2026 começa com o pé no freio e a cabeça no Oriente Médio

E agora, o que esperar deste ano? O cenário que parecia apenas desafiador ficou mais complexo em poucos dias. A escalada da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, com o fechamento do Estreito de Ormuz e a disparada do petróleo, adicionou uma camada extra de incerteza .

Os analistas já projetavam um crescimento mais modesto para 2026, algo em torno de 1,8%, segundo a mediana do Boletim Focus e consultorias como a Tendências . Mas esse número pode ser revisado para baixo se o conflito se prolongar.

O principal canal de contágio é o preço do petróleo. Com o barril do tipo Brent acima dos US$ 80 e batendo nos US$ 84, o risco inflacionário volta com força . “Se tivermos um conflito durando dois ou três meses e com o câmbio e petróleo mais desfavoráveis, poderemos ter um aumento de um ponto e meio a dois pontos percentuais na inflação deste ano”, alerta Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos .

Isso significa mais pressão sobre os preços dos combustíveis, do gás de cozinha, do frete e, no fim da cadeia, dos alimentos. E inflação mais alta, como ensina a cartilha econômica, tende a manter os juros elevados por mais tempo.

Juros, eleições e a dança das incertezas

A grande expectativa do mercado era que o Banco Central iniciasse em março um ciclo de cortes na Selic, hoje em 15% ao ano . Mas a guerra jogou um balde de água fria nessa festa. Agora, a aposta é que o Copom opte por um corte mais tímido na reunião dos dias 17 e 18 de março — talvez 0,25 ou 0,50 ponto percentual, em vez dos 0,75 esperados anteriormente .

“A incerteza provocada pelo confronto, somada ao resultado da prévia da inflação acima do esperado, impede uma queda mais agressiva”, resume Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados .

E tem a eleição. Ano eleitoral costuma trazer estímulos do governo no primeiro semestre, como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, que pode injetar algum ânimo no consumo . Mas o segundo semembro tende a ser marcado pela “espera” dos agentes econômicos, que seguram investimentos e decisões até entenderem o resultado das urnas . Pesquisas recentes mostram empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro num eventual segundo turno, o que adiciona ainda mais tempero a esse caldo .

O que esperar, afinal?

Se você quer uma previsão fechada, lamento decepcionar: ninguém tem uma bola de cristal funcionando perfeitamente agora. O que os especialistas repetem é que tudo vai depender da duração do conflito no Oriente Médio .

Num cenário de guerra curta, o impacto pode ser mais neutro, com o Brasil até se beneficiando como exportador de petróleo . Mas se o confronto se arrastar por meses, a combinação de juros altos, inflação resistente e incerteza eleitoral tende a limitar ainda mais o crescimento.

A verdade é que 2026, que já nasceu desafiador, agora caminha sobre brasas. O PIB surpreendeu no ano passado, mas o ritmo deste ano promete ser mais parecido com uma caminhada cautelosa do que com uma arrancada.

E você, o que acha? A guerra no Oriente Médio já está afetando seus planos ou seu bolso? Deixe sua opinião nos comentários.


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